

Alone Together – Maria Kreyn
Com o peito trêmulo e todas as energias exauridas eu fecho a porta. Do outro lado você chora. Ouço sua respiração pesada e a voz estrangulada rosnando contestações. Minhas pálpebras pesam. Na nossa tragédia não cabe mais nenhum ato, penso. É inútil a busca por vida nos escombros. Mesmo assim a culpa se arrasta sob a poeira densa. Já começo a sentir sua falta em quarenta e seis terminações nervosas. Há um breu prematuro que penetra o cômodo torpe pelas janelas. São cinco e vinte da tarde. Os filetes de luz não ousam me abraçar. Você pede mais uma chance e mergulho nos ecos das suas desculpas asfixiantes. Meu choro beira o desamparo. Cada lágrima exibe um ruído do inteiro de nós que se amarrou à carne. Você eleva o tom de voz e o medo se agarra à minha garganta. Temo que você apele para o descontrole. Meus músculos retorcem em desespero. A sua indignação ressoa com violência nas paredes da sala. A saliva desce ferindo. Suas palavras desconexas injetam-me ansiedade na retina. Não posso mais suportar. Ignoro os gritos de alerta da minha racionalidade e caminho em direção a porta. Não estou pronta para encarar a largura dos seus ombros sustentando uma imagem imperiosa. Talvez você mude. Talvez eu mereça. Talvez eu precise beijar a boca do diabo mais uma vez pra memorizar o gosto do inferno. Abro a porta. Encaro seu semblante perturbado. Sinto seus olhos coléricos pesarem na minha vesícula. Você me pede perdão e me repreende no aperto sufocante dos seus braços. Lamento a ausência de conforto. Não digo nada. A coragem foi encerrada. Voltamos ao lugar onde eu estanco seu sangue enquanto assisto o meu jorrar.